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Nenhum dos nove mortos morava na comunidade de Paraisópolis

Gustavo, vítima mais jovem da tragédia, tinha apenas 14 anos. Parentes dos mortos relatam os momentos difíceis em busca de informações.

Nenhum dos nove mortos morava em Paraisópolis. A vítima mais jovem da tragédia tinha apenas 14 anos. Ainda bebê, perdeu o pai para o câncer. No velório, os parentes contaram que Gustavo Cruz Xavier era um menino quieto, que gostava de jogos eletrônicos e sonhava ser advogado ou jogador de futebol.

“Muita gente acha que o baile funk só vai bandido. Não vai bandido, gente. Vai gente de bem para curtir. É o que tem para hoje para os jovens. O que o pessoal dá para o jovem hoje curtir? Que opções ele tem para curtir?”, perguntou José Roberto de Oliveira, padrinho do Gustavo.

Gustavo disse para a família que ia para o baile. Não deu mais notícias. A família, que mora no Capão Redondo, um bairro próximo, ficou sabendo que ele podia ser uma das vítimas ao receber um vídeo no domingo. Nele, o adolescente aparece de camiseta azul, desacordado.

“Gente, é uma criança de 14 anos, de 16, ou de 17. Eu estou aqui hoje, tem outras famílias também que estão do mesmo jeito da gente. Eu só quero saber o porquê de tudo isso”, disse a tia de Gustavo, Renata Cruz da Costa.

Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos, era da Zona Norte de São Paulo. Trabalhava como ajudante de tapeçaria e gostava de frequentar bailes funk. Ele faria 17 anos no dia 31. A mãe dele, Maria Cristina Quirino Portugal, esperou por horas que ele voltasse para casa.

“Fiquei acordada até quase duas horas da manhã esperando ele chegar. Ele não chegou, eu dormi, acordei com o coração pequenininho. Mas aí meu telefone tocou, eu atendi o telefone e era de um hospital. Eu perdi meu filho caçula, meu bebê. Eu perdi meu filho”, lamentou

No caso de outro Dennys, foram os amigos que avisaram a família. Dennys Guilherme dos Santos Franco, também de 16 anos, morava na Zona Leste, a mais de 30 quilômetros de Paraisópolis.

“Ele caiu e um amigo foi socorrer e o policial falou: pode deixar que a gente cuida dele”, contou Fernanda dos Santos Garcia, irmã do Dennys.

“Ele tinha 16 anos, era Jovem Aprendiz numa empresa de telemarketing, estudava, ia para escola. Gostava de jogar bastante bola”, disse o irmão Danilo Franco.

Também com 16 anos, Marcos Paulo Oliveira dos Santos morava na Zona Oeste. A família achava que ele tinha ido comer uma pizza com amigos. Um dos parentes falou sobre o jovem, mas pediu para não ser identificado.

“Ele era um jovem assim tranquilo, amoroso, bastante carinhoso com a gente, ele era caseiro. A gente até estranhou porque foi a primeira vez mesmo que ele esteve aí no baile funk”, contou.

Luara Victoria de Oliveira, de 18 anos, é a única mulher vítima da tragédia. Morava com uma amiga em Interlagos, na Zona Sul. Os pais dela já morreram. Foi criada pela avó, tios e primos. No velório, família e amigos estavam chocados e lembravam com carinho da jovem.

“Cheia de vida ainda, bastante coisa para fazer na vida. Mas o que a gente pode fazer? Pessoa que tinha coração bom, complicado isso daí”, disse o primo Leonidas do Nascimento.

Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos, foi velado em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde morava. Os amigos estavam inconsoláveis. O pai Reinaldo Cabral de Moraes disse que Gabriel foi ao baile por insistência de amigos.

“Para mim, ele era uma benção de Deus. Como todo filho, jovem tem os seus momentos assim, o seu jeito, mas eu digo para mim que eu não poderia escolher outro filho não. Era aquele ali mesmo. Então, para mim é uma perda muito grande. E é só isso, gente”, lamentou.

Bruno Gabriel dos Santos também era de Mogi das Cruzes. Era o mais novo de quatro irmãos. Ele tinha completado 22 anos na quinta-feira (22) e disse à mãe que ia comemorar com amigos. No fim da tarde desta segunda-feira (2), a irmã dele, Vanine Cristiane Siqueira, reconheceu o corpo no IML.

“Minha mãe esperando ele para almoçar, que tinha sido aniversário dele, fazer a comida que ele gostava, estrogonofe. Daqui a pouco quem chega? Os amigos dele perguntando ‘Cadê o Bruninho? O Bruninho?’. Minha mãe falou ‘Está na casa dos amigos dele, comemorando’. E aí a menina começou a chorar, mostrou já o vídeo, ele com o corpo para cima. E ali minha mãe já falou: ‘ele está morto, ele está morto’. Mãe não se engana”, contou.

Eduardo da Silva tinha 21 anos. Era ajudante de oficina e morava com a família em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Deixou um filho de três anos.

Mateus dos Santos Costa, de 23 anos, deve ser enterrado na Bahia. Ele vendia produtos de limpeza e também morava em Carapicuíba, sozinho.

“A mãe dele teve não sei quantos enfartes, não sei quantos AVC, está na cadeira de rodas, pensa para a gente como foi. E ontem, para dar a informação, a irmã dele está gravida de nove meses. Eu não sabia, eu achei que ela já tinha ganhado. Lá na Bahia”, contou Silvia Ferreira Gonçalves, cunhada de Mateus.

Nove histórias interrompidas tragicamente na madrugada de domingo, na favela de Paraisópolis.

Era numa das principais ruas da comunidade de Paraisópolis onde acontecia o baile na madrugada de domingo. Em meio ao tumulto, muita gente tentou escapar por uma viela, que é bastante estreita. As pessoas saíram correndo.

À noite, não tem luz no local, então estava tudo escuro e os moradores contam que as pessoas tentaram fugir subindo pela laje, entrando nas casas. Ao avançar pela viela, ela vai ficando cada vez mais estreita.

São alguns metros de um caminho sinuoso e apertado. A viela termina num portão que, na hora do baile, estava fechado, o que deixou as pessoas encurraladas.

“Veio muita gente. Então imagina cinco mil pessoas correndo por um único local fechado. Foi o que aconteceu. Então, quem correu primeiro acabou sendo pressionado aqui na frente”, explicou o líder comunitário Gilson Rodrigues.

Muitos moradores afirmam que o fato de nenhuma vítima morar em Paraisópolis dificultou ainda mais a locomoção. Muitos não sabiam por onde escapar. Um morador que não quis se identificar acordou com o barulho das pessoas correndo pela viela. Ele disse que tentou socorrer um rapaz que estava caído, mas que ele não reagiu.

“Isso dói, eu sou pai, isso está doendo em mim”, contou.

Fonte G1