Tecnologia

Apple suspende prática de ouvir conversas de usuários do Siri

Reportagem revelou que funcionários escutavam gravações para avaliar funcionamento do assistente virtual

RIO — A Apple informou nesta quinta-feira a suspensão da prática de ouvir conversas de usuários do assistente virtual Siri . A medida foi tomada como resposta a uma reportagem publicada pelo jornal “Guardian”, que revelou que funcionários de empresas contratadas pela companhia escutavam regularmente vários áudios captados pelo software, incluindo assuntos sensíveis, como negociações para a compra de drogas, informações médicas e sexo.

A companhia já havia admitido que funcionários escutam uma pequena parcela das conversas captadas pelo assistente, menos de 1% do total, com o intuito de melhorar o sistema. O objetivo é classificar uma série de fatores, como se a ativação foi deliberada ou acidental, se a pergunta poderia ser respondida pelo assistente e se a resposta foi apropriada.

“Nós estamos comprometidos em proporcionar uma experiência excelente do Siri, enquanto protegemos a privacidade dos usuários”, afirmou a companhia. “Enquanto conduzimos uma revisão completa, suspendemos o programa de classificação do Siri globalmente. Além disso, como parte de uma futura atualização de software, os usuários poderão optar por participar dessas avaliações”.

Segundo o “Guardian”, funcionários que trabalham numa empresa contratada para este fim na Irlanda foram surpreendidos ao chegarem no escritório nesta sexta-feira, sendo enviados para casa antecipando o fim de semana, sob a alegação de que o sistema não estava funcionando. Eles não foram informados sobre o futuro de seus empregos com a suspensão. Apenas os gerentes ficaram no local.

A Apple informou que uma “pequena porção” das requisições ao Siri é analisada para melhorar o sistema. As requisições são anonimizadas, ou seja, não são correlacionadas com a identificação dos usuários. Toda a análise é realizada em ambientes seguros e todos os revisores são obrigados a concordar com termos de confidencialidade.

Mas entre o material coletado estão as ativações acidentais, quando o assistente é acionado ao confundir o comando “Hey, Siri”. Nessas ocasiões, os usuários nem sabem que estão sendo gravados. O funcionário que revelou a prática ao “Guardian” contou ter ouvido inúmeros casos de conversas privadas entre médicos e pacientes, acordos comerciais, negociações de drogas e encontros sexuais. E as gravações são acompanhadas de dados de localização.

O escândalo dos assistentes de voz começou com uma reportagem publicada pela Bloomberg, revelando a prática pelo Alexa, da Amazon. O Google Assistente também mantinha esta prática, como mostrou reportagem da emissora belga VRT. Nesta semana, reguladores alemães ordenaram a suspensão temporária da transcrição de conversas captadas pelo assistente do Google na União Europeia, para que uma investigação avalie se a prática está de acordo com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados.

A ordem dos reguladores veio depois que informantes disseram que algumas gravações continham informações confidenciais. Uma agência de Hamburgo disse em 1º de agosto que o Google concordou com uma suspensão de três meses das gravações enquanto aguarda a investigação.